quinta-feira, 23 de outubro de 2008

ARG

1. O que é um ARG? Encontre um exemplo.
O ARG, Alternate Reality Game, como diz o próprio nome, é um jogo que propõe uma experiência de realidade alternativa. Trata-se de uma narrativa multimídia não-linear ou multilinear que se utiliza da vida real como plataforma básica. Em outras palavras, o jogo é ambientado dentro do mundo real, oferecendo “pistas” e elementos relacionados ao jogo dentro de anúncios, programas televisivos, sites espalhados pela Internet, entre outros elementos, muitos deles fictícios, criados especialmente para o jogo. Ele oferece um universo pré-construído com o qual os participantes poderão interagir inicialmente. Através dessa interação, os jogadores constroem e modificam esse universo, dando importância à cada ação tomada.

Por se sustentar em elementos dentro do “mundo real”, mesmo que fictícios, o ARG não se reconhece como jogo; não existem regras pré-definidas como em jogos de RPG, os eventos se desenrolam através da experimentação e pela tentativa e erro, como na vida real. Em adição, todos os elementos disponibilizados dentro do universo do jogo são comumente funcionais. Telefones, e-mails e websites disponibilizados sempre existem e são apresentados como se fossem elementos não-virtuais. Por fim, os personagens, tal como no RPG, são como pessoas reais e também são controlados por pessoas, não pela máquina, oferecendo uma interação complexa que poderá interferir no curso do jogo para os interagentes.

Normalmente centrados na resolução de enigmas e problemas baseados no enredo do jogo, o ARG tenta manter-se fiel à realidade, fisgando as pessoas de maneira sutil, individualizando-os dentro do universo e não os transformando em uma grande massa, também mantendo o jogo sigiloso enquanto estiver em atividade, sem divulgações. Os rabbitholes, como são conhecidos os pontos de partida, normalmente são websites indicados através de um telefone, um pôster ou outro elemento estranho, no sentido de quebrar um padrão, multimídia, podendo estar até inserido dentro de um filme ou programa televisivo, por exemplo. Logo, por diversas vezes, é patente sua relação com a divulgação de marcas, produtos ou serviços, surgindo como forte elemento publicitário de aspecto viral.

Um exemplo de ARG é o Lost Experience, desenvolvido durante a 2a temporada do seriado Lost, nos EUA. Ambientado com base na trama do programa televisivo, o ARG permitia aos usuários navegar e interagir por diferentes websites relacionados à série, focando-se na Internet como cenário.

2. De que modo os ARG pode apresentar características do hipertexto?

Os ARG são hipertextuais pelo fato de apresentarem tramas dinâmicas e interativas. Inicialmente, presume-se que todo o universo do jogo esteja interconectado. Cada evento ocorrido relaciona-se com os demais e, com base nas ações dos jogadores, desencadeia novos acontecimentos, modificando a trama geral do jogo de modo que seus elementos anteriores passem a se relacionar com estes novos. Em adição, os ARG são simultaneamente multilineares, por possuirem um universo pré-configurado a ser desbravado pelos usuários e, por conseqüência das ações desses usuários, também é não-linear, pois novos caminhos vão sendo construídos conforme o desenrolar da trama, interconectando todos os eventos.

Logo, tal como o hipertexto, o mundo do ARG apresenta-se em forma de rede, relacionando eventos e pontos de acesso. Uma informação disponibilizada leva a um site, esse site abre outras rotas, podendo ser percorridas da maneira como o usuário desejar. Quando situado dentro da Internet, o usuário sempre pode voltar atrás, o que deixa de ser possível caso o elemento ou evento esteja situado no mundo real, como em uma propaganda na televisão ou uma inserção dentro de um programa ou filme, por exemplo. Por fim, o usuário pode navegar pela realidade fictícia da forma como desejar, inclusive criando seus próprios caminhos através da interação com os personagens do mundo no desenrolar da trama.

3. Explique como os ARG podem ter impacto econômico.
Os ARG podem ter influência econômica por serem uma forte ferramenta publicitária. Esse tipo de jogo tem sido empregado como estratégia de divulgação viral de modo cada vez mais freqüente, criando um universo virtual que engloba diversas pessoas, incentivando-as a participar da trama e interagir com esse mundo. Os experimentos feitos nessa area têm mostrado resultados positivos e surpreendentes, como no caso do “Beast”, criando juntamente do filme AI, mobilizando comunidades inteiras orientadas pelo ARG focadas na sua resolução. No que diz respeito ao seu próprio centro, esse tipo de jogo é uma excelente forma de gerar buzz e manter o elemento central na mente dos participantes.

Em adição, como interage com o mundo real e atrai milhares de jogadores, o ARG é um meio em potencial a ser explorada por outras marcas, que encontram nesse espaço novas possibilidades e capacidade de inovação na forma de anunciar, permitindo um processo criativo complexo e envolvedor, posicionando a marca dentro desse mundo fictício. Conforme é apresentada dentro da trama, as pessoas podem perceber essa marca de maneiras distintas e diversificadas através da visão oferecida pelo ARG. Ou seja, o mundo virtual permite maneiras mais interativas e envolventes de se anunciar, permitindo que o usuário interaja com a marca, estabelecendo um determinado relacionamento com ela, de forma coerente e sutil, interpretando essa ação como parte da ambientação proposta, sem que apareça como uma propaganda forçada, quase estuprando o espaço individual.

Exemplos como esses foram utilizados no projeto “Lost Experience”, desenvolvido para série americana Lost. A Sprite patrocinou uma série de eventos dentro do jogo que faziam alusão à anúncios antigos do produto e fazendo uma série de referências quase subliminares à nova campanha, trazendo dentro de muitos das localidades virtuais do ARG o termo “Obey”, por exemplo, que corresponde ao conceito “Obey your thirst”, empregado nas propagandas. A Sprite utilizou o espaço virtual de maneira inteligente, inserindo-se na trama do jogo sutilmente, criando seu espaço e fazendo referência à sua campanha, sem invadir a privacidade dos jogadores ou atirar os anuncios do produta nas suas caras.


4. Redes são, de algum modo, importantes para os ARG?
A relação do ARG com as redes sociais é sutil e, muitas vezes, latente. Como se trata de um jogo, ele parece estar em uma categoria distinta, diferente da proposta das redes sociais. Contudo, ao meu ver, o ARG não deixa de ser uma rede social. Esse tipo de jogo engloba milhares de pessoas centradas num determinado tema, tal como se nota comumente nas redes. Em adição, a principal idéia, principalmente por ser tratar de um jogo, é a interação, seja ela com jogadores ou com desenvolvedores se passando por jogadores. A questão é que ela une pessoas e proporciona discussões e interações, gerando capital social.
Se por vezes determinadas comunidades online são consideradas como mundos distintos, o ARG já traz em si essa concepçáo, apresentando-se como uma realidade alternativa. Na seqüência, várias pessoas se vêem envolvidas ativamente dentro desse universo, compartilhando suas experiências e interagindo com outros indivíduos dentro desse espaço de modo que possam ter progresso no jogo. As redes sociais são reconhecidas na coletividade, baseada nos membros ativos e no significado da interação no interior da comunidade. O ARG força à interação, oferecendo a exclusão do jogador de dentro do universo em caso contrário, pois ele ficará alheio e incosciente aos eventos ocorridos.

Em adição, o próprio mundo do ARG se mostra como construção coletiva, uma vez que a trama e o mundo são modificados de acordo com as ações dos usuários. Logo, se o usuário X optar por A ao invés de B, pode resultar numa escolha irreversível que impactará sobre todo o mundo virtual, alterando significativamente a trama para todos os jogadores, que precisarão interagir com esse novo mundo modificado pela ação desse usuário X. A interação entre os participantes do jogo pode resultar em novas interpretações da realidade e novos caminhos a serem percorridos, unindo forças em prol do progresso dentro do jogo.

Um exemplo dessa situação se deu no ARG “The Beast”. Diversos jogadores organizaram-se em um grupo do Yahoo focados na resolução do jogo, somando seus conhecimentos e habilidades para resolver os enigmas e avançar dentro da trama. Esse grupo se auto-denominava Cloudmakers e contava com a participação de mais de mil usuários. Logo, embora o próprio “The Beast” não deixasse de ser uma rede social em si, o grupo Cloudmakers, se analisado externamente ao jogo, poderia ser encarado como uma rede social.